A minha São Silvestre 2015

São Silvestre - Yara Achoa

Meu “red carpet” são copinhos de plástico (Fotop)

Eu gostava de ver a São Silvestre à noite. Muito tempo antes de pensar em correr, sonhava um dia fazer parte dela. Acho até que, já pensando em fazer jornalismo, desejei trabalhar na noite de 31 de dezembro, cobrindo essa corrida que fazia parte do meu imaginário, da minha celebração de ano novo. A prova foi noturna até 1990. Depois passou para a tarde. Eu comecei a correr em agosto de 2005 e me inscrevi para minha primeira São Silvestre em 2006. Uma fratura por estresse na tíbia um mês antes da prova, porém, me impediu de participar. Chorei. No ano seguinte, 2007, finalmente estava lá, realizando meu sonho, completando os 15K em 1h35m. Repeti a dose em 2010, ano da polêmica entrega da medalha antes da prova! Minha temporada de corrida havia sido muito boa e nada melhor do que fechá-la com a alegria da São Silvestre, em 1h24m. Depois dessa participação, confesso que fiquei meio desanimada. Não exatamente com a prova, não com o clima da prova, não com a muvuca da prova, mas com o que estavam fazendo com a prova, com a falta de consideração com quem realmente é o dono da festa – ou seja, o corredor. Bom, o tempo passou, curei minhas mágoas e decidi encará-la de novo em 2015.  continue lendo

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W21K Asics: uma corrida perfeita!

asics w21k (2)Confesso que no início eu não era muito fã de corridas exclusivamente femininas… Mas mudei de ideia e já faz um bom tempo. Acho bem legal a atenção que as marcas passaram a dar a nós, mulheres, pensando nos mínimos detalhes para que a experiência esportiva seja a melhor. No ano passado, como estava às vésperas da Maratona de Berlin, fui só de torcida na W21 Asics. Mas esse ano participei. Da entrega do kit (na loja da Asics), ao kit em si (com direito à camiseta personalizada na hora e bolsa linda), passando pelo percurso (boa parte plano), pela cobertura (feita por fotógrafas) e as atrações (aula de dança), a ação chamando atenção para a prevenção do câncer de mama e os serviços (massagem, fotos, cabeleireiro) na arena, foi tudo perfeito. continue lendo

Golden Four Asics: 21K com choro no final

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Foto: Guto Gonçalves | Estúdio13

Eu tenho treinado regularmente. Procuro fazer os três treinos semanais de corrida e mais a musculação. Ok, algumas semanas são mais complicadas, só saem dois treinos… Mas continuo na ativa. Sei que engordei um pouco (my hips don’t lie) e isso faz diferença em uma corrida – imagine carregar uns três quilos a mais por quilômetros.Pois bem. Domingo teve a Golden Four Asics. 21K em percurso rápido. A ideia era fazer sub duas horas – visto que a Mizuno Half Marathon, em junho, fechei em 1h57m. Sem querer justificar, mas já justificando (pra mim mesma), além do peso sobressalente, tive uma semana atribulada e dormi pouco na véspera da prova. Uns dias antes, brinquei que minha estratégia seria sair correndo, correndo, como uma louca, desesperada. “Se quebrar, quebrei; se não quebrar, quebro meu recorde”, foi o bordão que usei. continue lendo

No fun, no gain

yara_10abril boas sensaçõesÀs vezes eu vou correr e entro em uma espécie de transe. Esqueço pace, distância, postura… e tudo o que me interessa são as boas sensações. Já faz um tempo que penso escrever sobre isso. E dia desses, fazendo uma pesquisa para uma matéria que estou fechando, me deparei com um pensamento bacana, que vai nessa linha e me inspirou. A frase é atribuída a Lorraine Moller, corredora neo-zelandesa que participou de quatro Olimpíadas e foi medalha de bronze na maratona dos Jogos Olímpicos de Barcelona, aos 37 anos: “Para mim, correr é um estilo de vida e uma arte. Estou mais interessada na magia do esporte do que em sua mecânica.” continue lendo

Lisboa: uma meia maratona com cara de maratona

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Sempre é bom treinar. As oportunidades aparecem. E foi assim que aconteceu com a 25ª Meia Maratona de Lisboa. Comecei a programar uma viagem à capital portuguesa com minha mãe e vi que a época que iríamos coincidia com a Meia. Fiquei com vontade de correr. Só precisava dar um jeito de me inscrever – e consegui graças à prestativa organização. continue lendo

Corra com o coração

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Foto: Guto Gonçalves / Estúdio13

Já não faço tantas provas como antes e nem sei quando tinha sido a última – talvez em outubro ou novembro do ano passado… Não lembro mesmo. Mas treino regularmente, sempre com uma meta (geralmente uma maratona) mais ou menos definida. A desse ano era a Maratona de Porto Alegre, em junho. Digo era porque estou passando por um período de reorganização da rotina (pessoal e profissional) e isso me tira um pouco o prumo. continue lendo

… Mizuno UpHill Marathon, a maratona…

uphill_marathon (15)A Mizuno UpHill Marathon é a primeira maratona de subida do Brasil, realizada em Santa Catarina, passando pelos municípios de Treviso, Lauro Müller e terminando com a subida da Serra do Rio do Rastro, com 1419 m de altitude. A estrada por onde passamos é considerada uma das mais bonitas do mundo.

Apenas 50 corredores foram convidados a participar desse desafio. Fui uma delas. Eis meu relato.

Tomei o café da manhã com os amigos, fiz os ajustes finais na roupa, número de peito pregado na camiseta, chip no tênis. Concentração antes da largada, muitas fotos, risadas. À medida que o horário da largada se aproximada, os semblantes tornavam-se mais apreensivos.

Posicionei-me atrás de todos. Minha estratégia era fazer a minha corrida – escapar do corte no quilômetro 21, ou seja, passar nesse ponto antes de 2h30 de prova, e seguir no meu ritmo para completar os 42K antes das seis horas limites. “Eu não preciso ir rápido. Eu só preciso ir. E chegar!” – esse tinha sido meu mantra durante os treinos.

Enfim, partimos. Os mais rápidos logo se distanciaram. No bonde do fundão restaram eu, o Iúri, a Jacke e a Betina. Seguimos pouco tempo juntos. Logo as meninas abriram. O Iúri também se distanciou um pouco. Carros da produção e dos fotógrafos passaram por mim desejando força. Segui sozinha por um bom tempo. Alguma coisa começou a me incomodar, mas eu não sabia exatamente o que. Talvez fosse o medo de não conseguir completar somado a alguma coisa física, sei lá. Fiz força para espantar pensamentos negativos que invadiram minha cabeça. Foquei na respiração. Respirava lentamente buscando voltar ao eixo.

Tomei um carboidrato em gel entre os quilômetros 8 e 9 e dei uma animada. Foi lá pelo 10 que alcancei o Iúri. Fomos lado a lado quase sem falar nada. De vez em quando, como a irmãzinha “pentelha” que quer puxar papo com o irmão mais velho, eu arriscava: “Olha isso, olha aquilo…” E ele pacientemente tirava o fone de ouvido para escutar o que eu dizia. Mas não queria incomodá-lo, então resolvi ficar quieta de vez.

O segundo gel foi por volta do quilômetro 17. Acho que foi por aí que eu comecei a fazer uma lista mental dos animais que havia visto pelo caminho (guarde essa informação) para passar o tempo. “Cachorro, vaca, cavalo, galo”.

Sei que imprimimos um bom ritmo nas descidas, passamos pela cidade de Lauro Müller e chegamos ao quilômetro 21, o ponto de corte, com 2h15 de prova mais ou menos.

Ali também era o “special point”, onde tínhamos nossas “special needs”, ou seja, coisinhas que deixamos com a produção e que poderíamos utilizar naquele momento. Tomei coca-cola, comi amendoim, troquei minhas meias que estavam muito molhadas, ameaçando criar bolhas nos pés. Claro que perdi uns bons minutos.

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A segunda metade, que estava começando, seria mais dura. A partir do quilômetro 25, com o início da subida da serra, a coisa ia se complicar e só piorar até o final.

Eu e o Iúri partimos juntos novamente. Talvez por eu ter ficado parada um pouco e o corpo ter esfriado, senti as primeiras e horríveis câimbras nas duas panturrilhas antes de chegar ao quilômetro 22 – parecia que um alien tinha se infiltrado nos músculos das minhas pernas, andando de um lado para outro. Falei para o Iúri que ele podia seguir e fiquei para trás.

Mas o que me deixou preocupada foi a tremedeira na mão. Achei que pudesse ter um troço ali, achei que pudesse perder a consciência, sei lá. Foi então que a lista de animais que eu havia feito antes me veio à cabeça. Eu obrigava a mim mesma repetir, na sequência certa, os animais que tinha visto pelo caminho. “Cachorro, vaca, cavalo, galo”. Se errasse, tinha de recomeçar. Achava que assim eu manteria minha sanidade, meu controle mental. Tomei um Advil para aliviar a dor. Consegui contornar a situação e voltei a imprimir um ritmo razoável.

De vez em quando eu repetia a lista – que foi me cansando muito a cabeça, mas era uma maneira de não “pirar”, de não pensar nas adversidades e de não querer abandonar a prova.

Mais adiante, não sei bem ao certo, talvez por volta do km 30, câimbras horríveis novamente. Estava sentindo falta de sal e perguntei na ambulância, que vinha colada a mim, se eles tinham. O médico me deu um gole de soro fisiológico e, fora da ambulância, aproveitou para aplicar anti-inflamatório em spray e fazer uma massagem vigorosa nas minhas panturrilhas. De novo parti.

Nesse tempo todo também pensava na minha família, nas mensagens que recebi dos filhos, do marido e dos amigos. Ia ser muito frustrante abandonar a prova. Pensava que se eu parasse iria decepcioná-los. E eu própria ficaria muito triste, não sei se iria segurar a onda depois. Lembrava também das palavras do Bernardo e do Clayton: “não terminar não é uma opção!” Sem comprometer minha integridade física, eu tinha de terminar. Estava sendo uma experiência única e eu tinha de ir até o fim. Mas se você me perguntar de onde eu tirava forças, respondo que não sei. Foi punk!

À beira da estrada vi um cabrito – ou acho que era um cabrito – e o inclui na lista. Agora eram cinco. “Cachorro, vaca, cavalo, galo, cabrito”. Por várias vezes fechei levemente os olhos e balancei a cabeça, como se pudesse assim espantar os pensamentos. Achei que estivesse ficando louca. Com tanta coisa para pensar e eu fazendo lista de animais…

No 32, encontrei novamente o Iúri, que agora sentia dores. Ele ameaçou parar. Pedi que ele continuasse, caso contrário eu não teria forças para seguir também. Desta vez foi ele que procurou uma rápida ajuda na ambulância. Logo estávamos juntos de novo, lado a lado.

Ia negociando com meu corpo e com minha cabeça. “Vamos até o 35. Lá você decide o que fazer…” De novo lembrei das palavras do Clayton e do Bernardo: “Quando você acha que não aguenta mais, ainda restam uns 30%”. Certamente eu já tinha entrado nessa reserva – a questão era até quando ela iria durar…

Na minha cabeça vinha a lista de animais, minha família, a satisfação por estar em um lugar tão lindo e o orgulho de fazer parte daquele grupo… Ao meu corpo restava dar um passo atrás do outro.

No 36, mais câimbras. A ambulância parou e eu entrei. O Iúri seguiu. Tão logo estiquei a perna, senti dores horríveis de novo. O motorista perguntou: “vai parar?” Foi o médico, Dr. Vitor, que respondeu: “Não. Ela só vai fazer uma massagem. Já vai continuar”. Ri mentalmente – agora tinha de ir mesmo.

Enquanto um enfermeiro mandava ver em rigorosas manobras nas minhas pernas, aliviando os nós que tinham se formado, aconteceu esse rápido diálogo:

Dr. Vitor –Você tem alergia a algum medicamento?
Eu – Não.
Dr. Vitor Quer tomar uma dipirona para aliviar a dor e seguir até o fim?
Eu – Quero.
Dr. Vitor – Vamos aplicar na veia, para fazer efeito mais rápido.

Medicada e de volta à pista

Medicada e de volta à pista

As enfermeiras demoraram um pouco para achar uma agulha e eu já estava quase desistindo de esperar. Mas recebi a medicação, em uma veia da mão direita, e fui para a pista de novo.

Ganhei um bom gás. Mas como estávamos na parte de subida mais radical e avariada do jeito que eu já estava, segui aos trancos e barrancos, alternando caminhada e trote.

Faltando pouco mais três quilômetros para o final, um “anjo” foi destacado para me fazer companhia. Sargento Rafael – que também integrava a equipe médica da prova – foi comigo por uns dois quilômetros, contando a história da estrada da Serra do Rio do Rastro (conhecida na região como Serra do 12) e que o avô dele havia ajudado a construir. Eu tentava guardar as informações para depois poder escrever, mas àquela altura mal conseguia lembrar meu nome, rsrs.

Quando vi o fotógrafo Marcelo Machado, que fazia cobertura da prova, pouco antes de uma das últimas curvas da serra, me esforcei para sorrir e sair bem na foto, embora a exaustão estivesse estampada em meu rosto.

Faltava pouco. Virei a última curva e à frente haviam apenas 600 metros até a chegada. O Bruno, da organização, me disse: “Você não está vendo a linha de chegada por causa do nevoeiro, mas está logo ali. Está ouvindo o barulho?”

À medida que fui me aproximando do pórtico comecei a ver uma galera vindo em minha direção. O Iúri também estava ali, me esperando para cruzar a linha de chegada. Já chorando – de alegria e alívio – nos últimos metros eu dizia para o Iúri: “Chega! Eu não aguento mais, eu não quero mais…” Ele, rindo, dizia: “Calma, acabou…”

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Finalizamos a Mizuno UpHill Marathon em 5h37m com um abraço de irmãos.

Foi minha sexta maratona. A mais difícil que já fiz. Foi uma prova de camaradagem, apoio, força. Foi uma prova que me mostrou coisas novas, que me fez pensar nos meus limites, na vontade de continuar e de completar as coisas que muitas vezes eu abandono pelo caminho na vida. 

Muito, muito obrigada a todos que direta ou indiretamente me ajudaram a ir até o fim.

E quando eu achava que já havia tido todas as emoções possíveis em relação à Mizuno UpHill Marathon, eis que no dia seguinte abro meu Instagram e vejo meu nome citado nesse post:

estrada

“Hoje tive o prazer de ter um dos melhores dia de trabalho da minha vida. Responsável pela saúde de 50 maratonistas na #mizunouphill. 42km serra acima!!! Onde acompanhei principalmente a trajetória da guerreira @yaraachoa, jornalista paulistana que cumprindo suas próprias metas de vida me ensinou alguns conceitos sobre perseverança. Parabéns Yara! Sucesso na sua carreira e vida esportiva. #amooquefaço #marathon #serradoriodorastro #uphill #mizuno”

Era o Dr. Vitor Benincá, o jovem médico que não me deixou desistir. 

Hoje as dores nas pernas já sumiram. A marca da aplicação da dipirona na veia em minha mão está desaparecendo. As lembranças, os sentimentos e o orgulho de ter completado a UpHill vão ficar para sempre!

A marca da aplicação de dipirona na veia da mão direita está sumindo. A medalha e o orgulho são para sempre!

A marca da aplicação de dipirona na veia da mão está sumindo. A medalha e o orgulho são para sempre!

… tudo começou há oito anos…

post agosto 2013_BLOGA mudança no corpo foi uma consequência – o que eu gostei mesmo foi da mudança de atitude…

Minha vida começou a se transformar há oito anos. Para ser mais exata, no dia 21 de agosto de 2005.

Dois meses haviam se passado desde que eu tinha tomado a decisão de me mexer um pouco – isso aconteceu depois que fiz uma matéria sobre superação de limites e fiquei mexida com as palavras de incentivo do organizador corredor.

Já tinha feito os exames médicos necessários e a entrevista com o treinador Marcos Paulo Reis, da MPR Assessoria Esportiva. Estava tudo certo para começar a treinar em poucos dias. Mas foi nesse dia 21 de agosto de 2005 que dei literalmente meus primeiros passos.

Recebi um convite para a 2ª etapa do Circuito Track & Field e resolvi ir. Até então nunca havia corrido – ainda mais 10 quilômetros. Não sei se é um defeito ou uma qualidade, só sei que muitas vezes minimizo a dificuldade. E aqueles 10 quilômetros, na minha cabeça, “não eram muita coisa”.

Lá fui eu com tênis “de corrida” emprestado da minha filha (na verdade um Nike Shox, com aquelas molinhas), camiseta do evento, legging e 10 quilos a mais do que o ideal para o meu 1,55m.

Nos primeiros 100 metros, pensei: “por que fui inventar isso?” Mas fui colocando metas: “vou correr 500 metros, depois eu ando”. Quando cheguei aos 500 metros, pensei: “aguento mais um pouco”. E fui assim num trotinho lento. Por volta do quilômetro sete, não aguentei e comecei a caminhar – caminhei por dois quilômetros. A esta altura eu já tinha ficado para trás, bem para trás.

Na reta final, corria de cabeça baixa, um tanto envergonhada por meu corpo e por minha performance: éramos eu, meia dúzia de retardatários e a ambulância…

Mas cheguei. Completei em 1h22m25s. Ganhei medalha – nem tinha ideia de que todos os participantes ganhavam -, fiquei contente. E voltei para casa com o corpo todo dolorido, mas cheio de energia. Lembro que cheguei eufórica. Estava elétrica. Efeitos da endorfina.

Quando comecei a correr estava com 39 anos – e meio que incomodada com muita coisa na vida, mas sem coragem de mudar.

Só sei que o tempo passou, eu me mantive firme nos treinos, emagreci (o que foi uma consequência, não o objetivo principal) e mudei muita coisa na minha vida pessoal e profissional. E falo sem medo de errar que a corrida tem tudo a ver com essa revolução. Muitas dessas mudanças abalaram meu mundo, me deixaram na corda bamba, mas também me fizeram reagir.

Nas fotos desse post, o que mais gosto de ver não é a mudança no corpo (até porque no início eu emagreci bastante, depois me equilibrei por um bom tempo e recentemente voltei a ter umas “sobras”), mas sim a mudança de postura, de atitude. Essas imagens são de corridas, mas me representam também fora delas.

Outro dia, correndo em uma manhã fria e chuvosa, pensei: “uma das melhores coisas que fiz por mim foi ter começado a correr…”

… completei minha quinta maratona (Rio)…

Quando corri minha primeira maratona, em maio de 2008, em Porto Alegre, com o tempo de 4h04m, me achei “a tal”. Foi aí que um amigo me chamou à realidade. Em tom de brincadeira, mas falando sério, ele disse: “você só vai entender o que é correr uma maratona lá pela quinta vez”.

Foi modo de dizer, claro – uma maneira de falar que quanto mais experiência se tem, mais a gente saboreia e desfruta a corrida, entendendo principalmente os sentimentos e as motivações que nos levam até ela. Só que esse número – cinco maratonas – ficou na minha cabeça.

Ainda em 2008, em novembro, corri a Maratona de Nova York. Em 2009 foi a vez da Maratona de Curitiba. Em 2010 veio a Maratona de Buenos Aires, quando atingi meu objetivo de fazer abaixo de quatro horas – fechei com 3h53m.

Era só correr mais uma para tirar a cisma da minha cabeça. Lembro que me inscrevi para Berlin no dia 1º de janeiro de 2011. Mas não basta se inscrever, tem que planejar, se organizar, treinar. Com muitas mudanças acontecendo no período, abri mão de ir para a Alemanha bem antes do dia da prova. Tudo bem, até porque descobri que meu tempo em Buenos Aires me credenciava a correr a Maratona de Boston. Fiz minha inscrição e recebi a confirmação. Minha quinta maratona aconteceria em 2012, em Boston! Mais uma vez, porém, meus planos não se concretizaram. A vida pedia outras prioridades.

O ano de 2013 começou e já com a rotina profissional e de treinos em ordem, achei que finalmente daria para encarar uma nova maratona. Foi em meados de março que contei a meu treinador, Marcos Paulo Reis, que gostaria de fazer a Maratona do Rio, em julho. Ele respondeu: “Vamos lá, vamos treinar para isso”. Mas sabíamos que não daria para repetir a performance de 2010. Claro que desejava fazer um bom tempo (pela atual condição isso seria por volta de 4h30m), mas acima de tudo queria sentir que era capaz novamente, queria desfrutar do percurso do Rio e cruzar a linha final sorrindo.

Maratona do Rio (2)

O DIA “D”
Eis que chega o dia 7 de julho de 2013, domingo de muito sol. Estava ansiosa e feliz como se fosse a primeira vez. Tinha todo o esquema da prova na cabeça, as passagens pelos quilômetros 5, 10, 15, 21, 30, 35 e 42. Mas um “sinal”, logo cedo, parecia avisar para não me preocupar com minutos e horas: a pulseira do relógio quebrou. Cheguei a considerar correr sem ele, mas consegui “consertá-lo” com uma super cola adesiva e fui para a largada.

Sempre me emociono na chegada, mas dessa vez quase chorei na largada, com as palavras do locutor. Partimos da Praça do Pontal, no Recreio dos Bandeirantes. Pelo meu planejamento, os dois primeiros quilômetros seriam em ritmo mais lento. E nem dava mesmo para acelerar muito, visto que esse trecho inicial era estreito. As passadas fortes dos atletas reverberando no asfalto pareciam as batidas dos nossos corações – é, eu estava mais emotiva do que o normal e a Maratona do Rio se anunciava para lá de especial.

A primeira metade da prova foi uma reta só, beirando as praias do Recreio, da Reserva e da Barra da Tijuca. E apesar do sol forte, eu consegui manter o ritmo, conversar com um ou outro corredor e curtir a paisagem.

A SEGUNDA METADE
No final da Barra, o percurso se tornou mais familiar – já corri várias meias maratonas no Rio, largando naquela área. Não pude deixar de lembrar ainda das emoções da corrida SP>Rio (600K), que também passou por ali. Só que a partir de então as dificuldades seriam maiores: trechos de subida, cansaço, sol mais forte, temperatura perto dos 30 graus…

Eis que surge um túnel. Com a escuridão, senti certa pane e medo de cair, o que me fez diminuir a velocidade. Logo depois, porém, o sol voltou a iluminar o caminho e me deslumbrei com a vista do Joá e a beleza de São Conrado. Nessa altura, o relógio já apontava quatro minutos a mais do que o planejado. Mas estava tudo certo – lembrei que o importante era me sentir bem na prova.

As forças começaram a faltar na longa subida entre os quilômetros 27 e 28. O calor estava minando minha energia. Tinha de controlar o lado psicológico. Uma das coisas que me motivava era pensar que logo após o Vidigal vinha o Leblon e a prova ganhava uma animada plateia. Como estava um dia quente, tinha muita gente na rua e na praia.

relogioSEM TEMPO
A partir do quilômetro 32, já em Ipanema, com sete minutos a mais do que o previsto até ali, a relação com a maratona passou a ser de amor e ódio (diferente de tudo o que eu tinha sentindo nas outras quatro vezes). Ao mesmo tempo em que curtia estar na maratona, também pensava que poderia ser apenas como aquela moça que vi passar trotando tranquilamente pela calçada. Também foi nesse ponto que acabou de vez a preocupação com o tempo que eu faria: meu relógio apagou. Passei a ditar o ritmo conforme o que eu sentia e me guiei pelos relógios de rua.

A distância até a chegada diminuía e os incômodos aumentavam. Não sentia exatamente dor, mas algo me “paralisava” e me fazia seguir mais lentamente. Passei a esperar pelo quilômetro 35, pois sabia que um professor da minha assessoria estaria me esperando com uma Coca-cola e uns stickers (aqueles palitinhos salgados). Foi bom parar por instantes e fazer o “lanchinho”. Agora faltava pouco mesmo, só mais sete quilômetros. Calculava que estava fazendo sete minutos por quilômetro, então seriam aproximadamente mais 50 minutos…

Mas esse final foi punk. A cabeça se rebelava contra o corpo e pedia para parar. O corpo obedecia uns segundos, mas depois voltava a trotar, tentando convencer a cabeça de que quanto mais rápido ele fosse, mais rápido acabaria. Também cheguei a pensar que correr 42 quilômetros só podia ser uma espécie de penitência, como se a gente estivesse ali pagando uma promessa. Acho até que cheguei a jurar que não queria nunca mais correr a distância – mas foi uma jura falsa, foi só naquele momento de conflito…

CRESCI E APARECI
Chegando ao quilômetro 39, ouvi meu treinador gritar meu nome e perguntar se estava tudo bem. Respondi que sim. Dali para frente tratei de resgatar todas as boas sensações da corrida e colocar meu melhor sorriso no rosto. Renasci, cresci, firmei o passo e fui. Na reta final eu era a imagem da felicidade (as fotos não me deixam mentir). Agora, sim, era a mesma felicidade que senti todas as vezes outras quatro vezes que encarei os 42K, independente do resultado. A mesma felicidade que me faz ir adiante, acreditar, enfrentar altos e baixos e chegar onde eu quero chegar seja qual for a situação. Pouco antes de cruzar a reta final, ainda vi minha filha na plateia, vibrando por mim. E no pórtico de chegada estava meu marido, me esperando para registrar esse momento tão especial. Fechei a Maratona do Rio em 4h44m.

Cada pessoa tem a sua genética, o seu treinamento, a sua fase de vida, a sua experiência: para uns é mais fácil, para outros é mais difícil. Em se tratando de amadores, não dá para fazer uma comparação do tipo “fulano foi bem melhor do que ciclano”. Para mim eu fui bem. E ponto.

Sim, acho que agora entendi o que é correr uma maratona. Entendi que é preciso se dedicar e respeitar a distância, dar o melhor mas também se divertir, fazer por prazer e não apenas para buscar um bom tempo ou pela “vaidade” de ser chamado de maratonista. E agora que entendi, pretendo “estudar” ainda mais essa matéria. Nem bem deixei o cenário da Maratona do Rio e já comecei a pensar em uma próxima.

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