Inspiração: Danielle Nobile

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“A corrida salvou minha vida de várias maneiras”, diz a professora Danielle Nobile, de Ribeirão Preto (SP). Ela sofreu um acidente de carro em 2012, ficou tetraplégica e teve de dar um tempo ao esporte que tanto amava. Mas não se deixou abater e deu a volta por cima. Vem com a Dani e ajude-a a ir cada vez mais longe…

Ela sempre foi ligada a esporte – começou com natação ainda criança. Com os passar dos anos, no entanto, já cursando a faculdade e trabalhando, acabou deixando a atividade física de lado. “Aos 20 anos vi meus pais, então em meados de seus 40 anos de idade, começando a apresentar problemas de saúde ocasionados pela obesidade e pelo sedentarismo. Olhei para mim, com sobrepeso, e pensei que não queria ficar assim. Resolvi cuidar da alimentação e voltar a ter uma vida ativa.” Danielle retomou a natação, começou a fazer spinning e algum tempo depois passou a trotar e correr, incentivada por um professor. No início de 2009, um amigo a chamou para uma corrida. Sua reação foi de espanto, porque ela achava que não estava pronta. “Tive15 dias para treinar para meus primeiros 5K. Mas quando passei a linha de chegada percebi que queria fazer aquilo pelo resto da minha vida!” Ela se dedicou e evoluiu no esporte. Era apaixonada pela atividade. Até que um acidente de carro mudou o rumo das coisas. A seguir, ela conta em detalhes sua trajetória de superação.

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Como era sua rotina antes do acidente? Minha vida era trabalhar o dia inteiro. Também tinha de cuidar da casa, lavar, cozinhar. Saia de casa cedo levando minhas marmitas, minha roupa e os tênis. Sempre dava um jeito de me exercitar, nem que fosse rapidinho. Mas eu realmente adorava correr, adorava ir para a academia, adorava as aulas de spinning.

Como foi o acidente? No dia 22 de outubro de 2012, uma segunda-feira, acordei muito feliz. No sábado tinha corrido 29K na Maratona de Revezamento Bertioga-Maresias com duas amigas. Demos risada, nos superamos e nos surpreendemos juntas. Foi maravilhoso. No domingo pegamos praia e voltamos para casa à noite. Na segunda, dei meu “bom dia” pelo Facebook, autorizei a marcação de algumas fotos da corrida, fiz minha marmita, peguei minha roupa da academia, me despedi de meus avós (eu morava com eles) e fui trabalhar (eu era professora e coordenadora na escola). E fiz algo que nunca fazia: guardei o celular na bolsa. Eu não tinha rádio no carro e sempre deixava o celular ali, tocando música. Mas nesse dia eu fui cantando alegre e feliz. A certa altura, achei que a estrada estava muito cheia de carros. Fui olhar a hora no relógio de pulso e perdi o controle do carro. Se tinha algo na estrada que fez o carro escorregar, não vi. Se quebrou algo no carro, não sei. Só sei que fui parar na grama e bati na mureta de concreto que dividia as pistas. Aí, eu entrei no liquidificador. Muito barulho e eu vendo terra e céu, grama e céu. Sentia o vento no meu rosto e pensava: “Meu Deus, isso que é capotar o carro?” Fiquei consciente o tempo todo. O resgate chegou rápido e passei os telefones dos meus avós, dos meus pais e do trabalho, para avisar que eu ia chegar atrasada. Mal sabia eu que não voltaria mais para escola e para os meus alunos. Eu não conseguia desligar o carro para os bombeiros abrirem a porta e me tirarem de lá. Não conseguia nem tirar o cinto de segurança. Achava que era só cansaço de tanto chacoalhar, mas já estava tetraplégica.

Quando você teve noção da gravidade do que tinha acontecido? Ainda no carro, quando os bombeiros pediram para tentar descer sozinha e eu não conseguia me mexer. O pouco que pude mover o braço, encostei na minha perna que estava sem sensibilidade. Ali eu soube. Comecei a chorar e dizer que era atleta e queria correr de novo.

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Como foram os meses seguintes? Passei a viver uma nova realidade: eu morando com meus pais, dependendo deles para comer, beber água, fazer minhas necessidades, ler, assistir televisão, tudo. E tive de trocar o esporte pela fisioterapia. Era uma vitória diária: conseguir escovar os dentes, segurar o garfo e comer sozinha, cortar uma comida, segurar a caneta, escrever meu nome, me maquiar. Cada dia era uma novidade. Também precisei aprender a viver na cadeira de rodas. Tentei encarar tudo com alegria. Não adiantava chorar ou me descabelar, porque isso não mudaria o que estava acontecendo. Claro que é difícil depender dos outros quando você está com sede e com fome. Tem hora que enche ficar pedindo, por medo de incomodar as pessoas. Com três meses de lesão eu fui para o Hospital Sarah, em Brasília. Lá aprendi coisas para me tornar mais independente como cadeirante. Quando disse que pretendia morar sozinha, até treinar passar pano no chão eu treinei.

O que mudou na sua vida? Tudo e nada. Eu me aposentei para poder cuidar da minha reabilitação. Hoje eu não conseguiria mais dar aulas como antes. Apesar de ter lesão alta e ser considerada tetraplégica – não é só a questão de movimentação, a tetraplegia envolve também outras demandas, como dores agudas, perda da sensação de frio e calor, ausência permanente da capacidade de transpiração, espasmos, queda de pressão e tudo isso eu tenho de sobra –, recuperei um pouco dos movimentos das mãos. Mas, mesmo com letra feia, não consigo escrever mais que duas linhas. Tenho espasmos nos dedos e a caneta cai da mão. Mas por dentro sou a mesma pessoa de antes, que vive rindo, que gosta de estar rodeada de amigos, que adora ouvir música, que ama esportes, que ama viajar, que ama a vida!

Você pensava que poderia voltar a correr? Correr com as pernas os médicos diziam que era impossível (mas ainda não perdi as esperanças). Então, deixei a corrida em stand by até descobrir a handbike. Isso aconteceu logo no início. Alguém me mandou uma foto de uma e comecei a cobiçá-la mais do que ouro. Quando fui para Brasília, entre fazer os exames de candidatura para o hospital e ser aceita, fiquei com meus pais por lá por uma semana. Nesse tempo, um amigo, que foi professor no Sarah, me convidou para testar a handbike dele. Fomos para um parque e experimentei pela primeira vez. Aí sim, passei a sonhar com ela de verdade.

Danielle Nobile

Como você está hoje, como é sua rotina? Depois que ganhei a handbike dos meus amigos (em junho de 2014), minha rotina mudou. Meus treinos acontecem em dois períodos do dia. Um deles sempre é de hand. Como não tenho carro para carregar a hand, tenho que treinar no rolo, dentro do apartamento. E no final de semana, quando meus pais ou alguém pode me levar, faço o longo na ciclofaixa. Também nado e faço musculação. Além disso, cozinho minha própria dieta e cuido da casa.

Você voltou a participar de provas? Sim. Ganhei a handbike no dia de uma corrida. Mas o freio e o trocador de marcha estavam do lado da minha mão mais fraca, a esquerda. Não conseguia fazer nada, não sabia mexer. Mas completei a prova com ajuda de um amigo, que me dava força nas subidas. Levaram a hand para trocar as coisas de lado. Um mês depois ela voltou para mim. Mas eu não tinha como treinar na rua. E dias depois que a recebi de volta, iria acontecer a prova que sonhava há dois anos: a Golden Four Asics. Participei sem treinar na handbike. Só tinha meu preparo da natação e da musculação. Foi uma prova muito especial. Já tinha subido a um pódio antes, em maio, correndo com a cadeira. Foi minha segunda meia maratona como cadeirante (e oitava na vida), mas eu estava esperando demais essa prova. E ter conquistado o primeiro lugar me deixou em êxtase.

Qual foi a sensação de voltar às ruas? A melhor do mundo. Cada vez que termino uma corrida, tenho a mesma sensação da primeira vez. E é tão bom! A corrida salvou minha vida de várias maneiras. Foi o que me salvou fisicamente, pois, segundo os médicos, foi a minha condição física que fez com que meu corpo respondesse rápido na uti e no tempo que fiquei no hospital. E foi o que me salvou emocionalmente, não deixando a tristeza me pegar e não permitindo que eu me entregasse – eu tinha algo porque lutar.

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Qual sua distância preferida? Eu amo meias maratonas. Sou uma lesma nos primeiros 10K. Começo a esquentar no quilômetro 11 e passo a curtir a prova no 13. Sempre que canso, olho e estou perto da placa do 18. Deliro quando chego ao 19 e entro em êxtase no 20, até acabar.

Uma mensagem final. Muitos cadeirantes só sobrevivem, ficam vendo a vida passar, porque acham que o mundo acabou. Por vezes, a família e a sociedade também colocam isso na cabeça deles. Eu quis que minha realidade fosse diferente e estou me empenhando. Sobreviver é muito chato. A vida é para ser vivida! Claro que ninguém é feliz 100% do tempo e que faltam coisas. E aí também está a graça da vida: sonhar e buscar realizar suas metas. Hoje eu viajo mais, conheço mais lugares e mais pessoas interessantes, tenho mais histórias para contar. Leio mais livros. Pratico mais esporte. Vejo mais meus pais e meus avós. Vou mais à casa dos meus amigos. Realmente dou valor às pequenas coisas. Sinto que ainda tenho muita coisa para fazer. Tem muita vida aqui dentro!

VOCÊ PODE AJUDAR A DANIELLE NOBILE A IR CADA VEZ MAIS LONGE

Desde que a Dani ganhou a handbike no ano passado, teve início uma nova história. Ela entrou para o paraciclismo, ganhou a meia maratona de Buenos Aires 2014 e, por ter sido campeã da Wings for Life 2014 na categoria cadeirante feminina, tornou-se embaixadora da prova, representando o Brasil na Wings For Life 2015 em Verona, na Itália.

Hoje, é a terceira no ranking nacional no paraciclismo. Recentemente também entrou para o paratriatlhon e orgulha-se em ser a primeira mulher cadeirante triatleta do país. Mas sua handbike é de ferro e não atende as especificações da UCI para grandes provas internacionais. Sozinha, ela não consegue comprar uma handbike de alumínio para continuar vivendo o sonho da corrida e para melhorar seu desempenho, representando o Brasil lá fora.

Mas você pode ajudá-la! Acesse #VemComADani e COLABORE!

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(Por Yara Achôa – matéria originalmente publicada na revista Contra Relógio/fevereiro 2015 e editada com atualizações) 

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