Golden Four Asics: 21K com choro no final

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Foto: Guto Gonçalves | Estúdio13

Eu tenho treinado regularmente. Procuro fazer os três treinos semanais de corrida e mais a musculação. Ok, algumas semanas são mais complicadas, só saem dois treinos… Mas continuo na ativa. Sei que engordei um pouco (my hips don’t lie) e isso faz diferença em uma corrida – imagine carregar uns três quilos a mais por quilômetros.Pois bem. Domingo teve a Golden Four Asics. 21K em percurso rápido. A ideia era fazer sub duas horas – visto que a Mizuno Half Marathon, em junho, fechei em 1h57m. Sem querer justificar, mas já justificando (pra mim mesma), além do peso sobressalente, tive uma semana atribulada e dormi pouco na véspera da prova. Uns dias antes, brinquei que minha estratégia seria sair correndo, correndo, como uma louca, desesperada. “Se quebrar, quebrei; se não quebrar, quebro meu recorde”, foi o bordão que usei.

O domingo amanheceu friozinho e bonito, perfeito para correr. E eu bem que tentei sair como uma louca, desesperada. Mas na verdade acho que sai “normal” – em ritmo de 5’30”, um pouco mais, um pouco menos –, com aquele medinho de não aguentar e ter de parar. Nos 10 primeiros quilômetros pensei várias vezes na mensagem que minha amiga Fernanda, do Rio, havia me enviado no dia anterior: “vai com tudo, meia loka*, bem loka. Você é mais forte do que acredita. Não falo nem em baixar o tempo, mas em relembrar a força que você tem para lutar pelo que acredita”. (*inventamos o #projetomeialoka com o objetivo de baixar cada vez mais nosso tempo nos 21K).

Para não ficar paranoica com o relógio, me distrai usando a estratégia que usava quando comecei a correr: avistava uma pessoa de vermelho e tinha de ultrapassá-la. Também entrou na brincadeira ultrapassar mulheres magras e bonitas, kkkkkk. E se estivesse de vermelho e fosse magra e bonita, eu ganhava ponto em dobro, kkkkkkk. Também encontrei um amigo pelo caminho, o Tomaz (editor da Contra Relógio), que sempre tem uma boa história para contar. Seguimos juntos por um tempinho, mas não consegui acompanhá-lo.

My hips don't lie...

My hips don’t lie…

Assim, fechei os primeiros 10K em 55:28.

Depois, já dentro da USP, inventei de usar “técnicas de meditação” para baixar minha ansiedade e continuar firme: fiz um mudrá (aquele gesto de juntar o indicador com o polegar – pesquisei agora e vi que chama Jñana Mudrá e tem propriedade calmante e favorece a prática de concentração) e entoei mentalmente o mantra om (pesquisei agora também: significa a palavra sagrada da qual emana todo o universo, uma invocação, uma bênção, a vibração da própria alma). Por que meditar em plena corrida? Será que funciona? Sei lá. Achei que podia ajudar. Pelo menos me distraiu um pouco.

Mas lá pelo quilômetro 16 – depois de outro rápido papo com um corredor –, o corpo começou a dar sinais de cansaço e nada mais poderia me enganar. Sei que estou chegando ao meu limite quando passo a invocar o pessoal lá de cima… “Jesus”, “Meu Deus”, “Nossa Senhora”. E sei que estou bem próximo ao meu limite quando as palavras santas cedem espaço para as mundanas: “cara…”, “pqp”, “por…”

No quilômetro 17, uma cena roubou o foco do meu “sofrimento”. Vi um corredor-guia e uma cega. Ao passar pelo totem que marcava o quilômetro, o guia leu a frase estampada ali: “Na adversidade, uns desistem, enquanto outros batem recordes – Ayrton Senna”. Ela respondeu: “olha que lindo, é isso mesmo”. Me arrepiei da cabeça aos pés e pensei que eu não tinha motivos para reclamar, era só ir em frente.

No quilômetro 18, meu treinador, Marcos Paulo Reis, me viu e perguntou se estava tudo bem. Respondi: “mais ou menos” – de tão cansada, a poesia do quilômetro anterior já tinha se dissipado.

Eu faço contas de cabeça o tempo todo projetando meu tempo final. E àquela altura eu ainda acreditava terminar em 1h58 ou 1h59 – seria sub 2h, tava valendo…

Acho que mais ou menos no quilômetro 19 fiquei próxima a uma dupla , o cara incentivando a moça… Vendo meu esforço, ele sugeriu que fossemos juntos, para eu terminar abaixo de duas horas.

Naquela subidinha para pegar a Avenida do Jockey, eu já não aguentava mais. Sabia que faltava pouco mais de um quilômetro, mas estava exausta. E me veio uma súbita vontade de chorar – com um pouco de exagero, tive a sensação de que não ia conseguir mais respirar, kkkkkk. Cheguei a dizer em voz alta “não aguento mais” (guardadas as devidas proporções, lembrei da Uphill Marathon, da minha chegada com o Iúri…) E o cara que acompanha a moça respondeu: “Aguenta, sim. Falta pouco”. Sorri sem graça, tentei me acalmar e segui.

Entrei no Jockey, para os 500 metros finais, como uma bala. Só queria cruzar aquela “por..” de pórtico de chegada abaixo de 2 horas. Nos 300 metros finais, pelas minhas contas, vi que não atingiria a meta.

Cruzei a linha final – chorando – em 2:00:15. Um amigo, ao me ver aos prantos, me abraçou e perguntou: “o que foi? tá tudo bem? tá chorando por que?” E eu respondi: “porque eu tô cansada!” – buááááá. Agora dou risada da cena.

Claro que o choro não foi por não ter feito abaixo de duas horas, ainda mais porque não era “a prova da minha vida”. Chorei porque tava cansada. Chorei por alguma reação química provocada pela exaustão. Chorei por mimimi (afinal, muita gente pode dizer que é uma prova fácil, plana, que favorece um bom tempo, e eu que treinasse mais). Chorei porque chorei, oras.

Antes de seguir para os braços do Guto (que pacientemente me esperou e fez uma foto linda da chegada – nem parece que estou fazendo beicinho), eu fazendo esse drama interior, fui surpreendida por um corredor que me agradeceu mais ou menos assim: “se não fosse você, eu tinha ficado para trás.”

Obrigada mais uma vez, corrida! Mesmo sofrendo de vez em quando, eu te amo. Esse mês de agosto fazemos 10 anos de relacionamento – e, segundo meu treinador, tá durando mais do que muito casamento, kkkkk.

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3 respostas em “Golden Four Asics: 21K com choro no final

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