A corrida é terapêutica

run therapy1A corrida é mais do que deixar o corpo em forma, ganhar fôlego, baixar tempo. É também uma espécie de terapia. Quem corre sabe que após um dia exaustivo, umas boas passadas – lentas para relaxar ou rápidas para descontar a raiva – são calmantes. Tem toda aquela coisa de deixar o estresse e as preocupações pelo caminho em cada gota de suor que escorre. Mas não é exatamente disso que quero falar. Para mim, muitas vezes, a corrida é terapêutica no sentido de me fazer olhar para dentro. É quando a Yara conversa seriamente com a Yara. Por isso que às vezes digo que “eu preciso correr”.

E ontem (quinta) foi um dia desses. Não estou num período dos mais tranquilos. Sai de um emprego que eu gostava – e com isso baixa também aquela preocupação com grana, futuro, falta de rotina e tal. Tenho de dar conta das coisas em casa (organização, arrumação, louça para lavar, roupa para por na máquina). Ao mesmo tempo estou fazendo contatos, marcando reuniões, articulando possíveis trabalhos, já escrevendo uma coisa aqui outra ali, enfim, correndo atrás do sustento. Em meio a tudo isso tem ainda o dia a dia, ao vivo, por telefone, por whatsapp: “filho, não esquece que hoje tem natação”; “oi, mãe, sim, vou almoçar na sua casa”; “Antônio, onde está seu uniforme para lavar”; “oi, mãe, não, não dá para tomar café com você hoje”; “não sei o telefone do banco, Fernanda”, “oi, mãe, não, não estou assistindo a Sônia Abrão”… Ok, é uma vida normal, como de muita gente. Mas tem dias ou períodos que eu fico mais sensível. Posso, né? Hoje, além de tudo, briguei com o Guto. Não vem ao caso quem começou ou quem tem razão. Briguei. Brigamos.

Sai para correr no final da tarde para colocar a cabeça no lugar. Nem olhei planilha nem nada. Precisava correr. Cheguei ao Ibirapuera pensando: “vou correr até gastar os pés” – ou seja, tinha muita coisa para conversar comigo. Dando os primeiros passos, reconsiderei: “Tá, você precisa correr, mas não até gastar os pés, né? Talvez uma horinha esteja bom.” Fone de ouvido a postos e a mesma playlist de anos (a única, para falar a verdade). Pelo menos coloquei na ordem aleatória para dar a sensação de surpresa a cada nova música.

Comecei. “Vou em ritmo lento, para acalmar”. Mas muitas vezes o corpo não obedece. Não que eu quisesse correr forte, mas o meu confortável anda um pouquinho mais acelerado. A cada música, um “recado” para minha vida. “Eu vejo a vida melhor no futuro”, profetizou Lulu Santos. “Isso, Lulu, a vida vai ser melhor no futuro. Eu vou arrumar umas coisinhas aqui e o Guto arrumar outras coisinhas ali”, devolvi.

Não sei se você, caro leitor, é desse tipo, mas parece que todas as músicas (pelo menos as que eu gosto) são feitas para mim. Nando Reis mandou uma indireta: “Eu só queria que você cuidasse / Um pouco mais de mim como eu cuido de você / Cuidar é simplesmente olhar / Pra um mundo que você não vê…” Acelero e não me contenho: “Cala a boca, Nando, não me venha com lição de moral agora.”

Já imaginou correr em ritmo de 5’30” com Roberto Carlos se derramando em “Detalhes”? Pois “aconteceu com uma amiga minha”, como diria Nelson Evêncio. Estava com 25 minutos de corrida e tive vontade de parar e mandar um “eu te amo” para o Guto – não parei e agora me arrependo. Mas vou mandar agora – peraí (mandei). É que logo depois os Titãs apareceram com “Flores”. E comecei a ver flores por todos os lados.

Bom, a corridinha fluiu, em ritmo constante – do jeito que eu gosto. Em um ou outro quilômetro, cheguei a dar uma desacelerada. Tipo quando a vida entra na zona de conforto. Mas bastava uma sombra fungando atrás de mim para eu ficar esperta de novo e voltar ao passo firme.

Mesmo em ordem aleatória, talvez mesmo para reforçar, no final tocou duas vezes Capital Cities prometendo que estaremos “safe and sound”.

Foram 13,2K em 1h16m39s que me deixaram mais calminha, feliz e esperançosa (endorfina circulando é uma beleza). Os problemas não desapareceram magicamente, claro. Mas a conversa interior foi boa. E isso já é um passo – ou muitos passos – para que as coisas fiquem bem logo.

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