As lições da Maratona de Berlin

_Berlin_corrida (15)corFoi minha sétima maratona – uma corrida feliz do primeiro ao último passo. E me deixou lições para todos os momentos, como o atual. Um momento de recomeçar, se reinventar, de acreditar e simplesmente ir… Já havia feito seis maratonas – Porto Alegre, Nova York, Curitiba, Buenos Aires, Rio de Janeiro e Uphill (Serra do Rio do Rastro, SC) – e, seguindo meu objetivo de correr uma prova de 42K por ano, nos primeiros meses de 2014 comecei a pensar em minha nova experiência. Em meu histórico, haviam três maratonas feitas abaixo de 4h20m (um tempo que considero bom, para uma amadora como eu) e três bem acima dessa marca….

Embora saiba que uma competição é diferente da outra, precisava tirar a prova: ou eu era uma maratonista de quatro horas e pouco ou muito acima disso. Mas já estava me conformando em ser do time das mais lentas. Tanto que vivia repetindo: “não nasci para correr, mas sou insistente. Corro contra minha natureza”. Eis que, em 2013, meu irmão mais novo correu a Maratona de São Paulo, um percurso considerado casca grossa, e fechou em 3h37m. Fiquei feliz e admirada com o resultado dele. Comentei com um amigo, corredor experiente, que disse: “é genética”. Foi daí que pensei: “se é genética, eu também tenho esses genes”. Coloquei na cabeça que também iria correr a Maratona de São Paulo, em outubro, e completá-la perto de quatro horas. Conversei com meu treinador Marcos Paulo Reis, falei dos meus planos e, em maio, dei início ao projeto. A planilha pedia quatro dias de corrida por semana e três de musculação – também inclui uma sessão semanal de fisioterapia e, mais adiante, uma aula de ioga.

Tudo seguia nos conformes, quando, no final de julho, recebi um convite para correr a Maratona de Berlin. Fiquei eufórica! Era um sonho antigo participar dessa que é uma das mais badaladas provas do mundo (em 2011 cheguei a me inscrever, mas não fui). Falei com meu treinador, que disse que seria uma ótima troca – afinal, o percurso da cidade alemã é totalmente plano. Meu objetivo de completar uma maratona perto de quatro horas parecia ter ficado mais próximo. Mas sabe quando você ainda não tem certeza de que vai conseguir? Até porque eu havia completado a Meia Maratona do Rio, em 28 de julho, em 2h07m, o que projetava uma maratona na casa das 4h25m. De novo, já estava me convencendo de que fazer em 4h30m seria um bom resultado. Eu estava com uns três ou quatro quilos acima do que seria ideal para meu 1,55m de altura – e perder esse excesso poderia melhorar minhas perspectivas. Teria de me dedicar bem mais do que já estava me dedicando para chegar perto das quatro horas – e diminuir mais de 20 minutos em uma corrida não é tarefa fácil. Emagrecer e treinar direitinho para atingir o ritmo ideal, tendo de trabalhar, cuidar da casa, dos filhos, enfim, da vida, não é tarefa fácil – parte 2. E lembrando: eu tinha apenas 60 dias para isso.

berlin1LIÇÃO NÚMERO 1 DA MARATONA DE BERLIN: não basta querer e sonhar, é preciso agir para chegar lá. Procurei a nutricionista Betina Balletta, de São Paulo, para melhorar a alimentação. Eu comia razoavelmente saudável, mas faltava variedade. Basicamente ajustei as porções (aumentei o consumo de proteína magra, diminui um pouco o carboidrato, cortei doces), ampliei a lista alimentos (incluí chás, sementes, frutas variadas) e, o que foi bem importante, comecei a jantar de maneira saudável (uma sopa leve ou um filé de frango e salada). Enfim, passei a comer mais e melhor. Colocamos como meta perder quatro quilos.

LIÇÃO NÚMERO 2 DA MARATONA DE BERLIN: acredite que você é capaz de mudar. Com o volume de treino aumentando (os longos de corrida variavam entre 24 e 30K, que eu fazia em ritmo de seis minutos por quilômetro), a dedicação à musculação e a dieta certinha, os resultados vieram. Embarquei para Berlin com 52 quilos e vários centímetros a menos no abdômen e nos quadris. Na planilha de ritmo que meu treinador enviou para a prova, a previsão era terminar em 4h13m28s.  

LIÇÃO NÚMERO 3 DA MARATONA DE BERLIN: a gente não consegue controlar tudo o tempo todo. Embora tenha treinado direitinho para todas as outras provas, nunca havia me sentido tão bem fisicamente como agora. A evolução, da primeira maratona, em Porto Alegre (2008), para Berlin (2014), em termos de preparação, foi enorme. Aprendi muita coisa com as experiências anteriores. Sabia, inclusive, que, apesar de todo o preparo, não existia total certeza de que as coisas iriam dar certo. Autoconfiança é importante, mas a gente não pode esquecer que a vida tem imprevistos. Claro que evitei comidas diferentes (salsichas, linguiças, molhos e outras delícias alemãs, só depois da prova) e andei com cautela por toda a parte (imagine torcer o pé às vésperas da competição). Mas como cheguei três dias antes da maratona, foi inevitável caminhar bastante para conhecer Berlin, que estava com temperatura bastante agradável. E, acredite, levei um tombo em uma escada na hora que estava indo para o hotel para me recolher no dia anterior à prova – felizmente, nada grave.

Quanto ao sono, sempre dormi bem, mesmo em véspera de prova. O problema é que, juntando fuso horário e euforia, dormi pouco em Berlin. A média era de cinco horas por noite. Para quem iria encarar 42K, não era o ideal…

5O costumeiro frio do outono alemão não deu as caras no domingo, 28 de setembro: Berlin amanheceu com um lindo céu azul e temperatura na casa dos 10 graus – com previsão de chegar até 21 graus. Vesti a roupa, cuidadosamente preparada no dia anterior, me certifiquei dos géis de carboidrato que iria levar para consumir ao longo dos quilômetros e repassei o ritmo enviado pelo treinador (agora posso confessar que secretamente eu tinha os meus planos, um pouco mais ousados do que os do meu mestre, rsrs). Por volta das seis da manhã, desci para o café da manhã – a largada seria às 8h45 no Tiergarten Park, distante quatro quilômetros do meu hotel. Nessa hora, para minha alegria, tocou uma música muito especial para mim: Viva La Vida, do Coldplay, que tem um significado especial desde a Maratona de Nova York. Interpretei como um sinal de sorte.

LIÇÃO NÚMERO 4 DA MARATONA DE BERLIN: se você está feliz, deixe o sentimento energizar você. Peguei o metrô e fui para a largada. Durante todo o trajeto havia muitos corredores, muitos acompanhados de suas famílias – maridos, mulheres, mães, pais, filhos adolescentes e até bebês. Tenho certeza de que meus olhos brilhavam com aquelas cenas. Pensava em meu marido – que tanto me ajudou no processo de preparação, fazendo treinos ao meu lado, me dando suporte e tendo uma enorme paciência de me ver falando tanto da maratona – e nos meus filhos – que igualmente foram bastante compreensivos nesse período. Eles não estavam fisicamente ali, mas estavam comigo: eu iria levá-los pelos 42K de Berlin. É uma sensação mágica essa dos minutos que antecedem uma largada de maratona. Você pensa em tanta coisa, em tanta gente, repassa seu treinamento e sua estratégia para a prova, verifica se está tudo bem com você, lembra de quando começou a correr e de tudo o que passou para chegar até ali, agradece a Deus… E com seis maratonas nas costas, achei que já estava acostumada às emoções. Mas estava enganada. Berlin despertou meus sentimentos mais profundos – e tive vontade de chorar de emoção, de felicidade. Foi tudo muito mágico.

Já na enorme área de concentração, muita gente por todos os lados – os números indicavam 40 mil inscritos. Quase todo mundo enrolado em um plástico térmico que é distribuído para proteção contra o frio. Encontrei alguns amigos, todo mundo naquela expectativa… Uns eram maratonistas de primeira viagem – bonito de ver essa emoção da estreia.

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A hora de encarar os 42K se aproximava. Para animar, muita música – tocou até Ivete Sangalo. Milhares de balões amarelos, soltos ao tiro de largada, indicavam que o sonho estava se tornando realidade. Como eu estava lá atrás e havia muita gente, levei uns 25 minutos até passar pelo pórtico. Mas, enfim, parti. Feliz como nunca.

Logo no primeiro quilômetro passamos pela famosa Coluna da Deusa Vitória, o anjo dourado do filme “Asas do Desejo”, de Wim Wenders, que celebra as vitórias prussianas sobre a Dinamarca, a Áustria e a França. Era só o início de um desfile de atrações – ao longo do caminho iríamos passar por cartões-postais berlinenses, como o Reichstag (Parlamento), Berlin Dom (Catedral de Berlim) e as ruínas da igreja bombardeada Kaiser-Wihelm-Geachnis-Kirche, além do gran finale no Portão de Brandemburgo, a versão germânica do Arco do Triunfo. Juro que olhei para todos os lados, mas estava tão fora do ar que não fui capaz de identificar nenhuma dessas atrações enquanto corria – só reconheci mesmo o Portão de Brandemburgo, na reta final.

Mas o motivo da “distração” também foi a grande festa armada por toda a cidade. Durante o trajeto, bandas de músicas tocam os mais variados ritmos para incentivar os atletas e um milhão de espectadores – sim, um milhão! – ficam pelas ruas para incentivar e aplaudir os corredores. O povo se enche de orgulho por receber tantos estrangeiros…

Comecei a maratona em um bom ritmo: completei o primeiro quilômetro em seis minutos, um pouco mais rápido do que o treinador havia orientado. Mas tudo bem. Era o início e é difícil controlar a adrenalina nessa hora. No segundo quilômetro, já estava um pouco mais rápida. E no terceiro, ainda um pouco mais. Idem no quarto, no quinto… Aí tive que travar uma conversa comigo mesma: “Calma, Yara, é só o começo, tem muito chão pela frente. Não vai gastar todo combustível agora.” Mas o corpo não queria saber de papo, queria correr, como que dizendo “nasci para correr!” E eu corria feliz, sorrindo o tempo todo.

yara berlin (14)Os quilômetros iam passando e eu mantinha o ritmo constante (e abaixo do previsto). Cheguei a pensar que o relógio estivesse com problema – mas, peraí, falta de confiança nessa hora não dá, né? Para me distrair, como de costume em minhas corridas, passei a fazer cálculos de cabeça – sim, pode me chamar de maluca. Com tanta coisa para distrair e eu fico fazendo contas, projetando meu tempo final da maratona. Dessa vez, além dos números, me distraí com corredores dinamarqueses. Impressionante: por onde eu passava havia uma camiseta vermelha com uma cruz branca nas costas escrito Denmark. Depois fiquei sabendo que a maior participação estrangeira na prova era de dinamarqueses. Quando via uma bandeirinha do Brasil numa camiseta, também me aproximava e desejava “boa prova” – falei com gente do Recife, de Ribeirão Preto, de São Paulo, de Cuiabá…

Passei pelo quilômetro 21, a metade da prova, com 2h02m. Estava melhor do que o previsto e eu continuava animada – se continuasse naquela constante terminaria próxima às quatro horas. Mais adiante, um expectador com sotaque alemão arriscou me chamar pelo nome (que estava estampado no número de peito): “Yarrra, looking is good!” Devolvi o incentivo com um baita sorriso. Eu não só parecia bem, eu estava bem!

Avançava e me preparava psicologicamente para a hora da dor – porque sabia que uma hora ela ia aparecer. Por volta do quilômetro 25 avistei um casal de brasileiros e acelerei para alcançá-los. Era minha amiga carioca Fernanda – uma irmã que ganhei com a Maratona de Berlin – e o marido dela, o Alexandre. Era a estreia dela nos 42K e ela estava muito emocionada. Fiquei tão feliz por encontrá-la! Corremos juntas por algum tempo. Lembro que ao passar pelo quilômetro 27, falei: “Vamos lá, Fe, só falta uma São Silvestre (a tradicional prova do final do ano tem 15K, a distância que faltava para completar a Maratona).”

O temível quilômetro 30 se aproximava – que costumamos chamar de “muro”, onde as forças começam a falhar e você tem que se superar para correr os 12 quilômetros finais. Passei por ele e… nada aconteceu. Melhor assim, pensei.

A empolgação do público, as crianças com as mãozinhas estendidas para tocar nas nossas, as animadas bandas pelo caminho, tudo me entorpecia. E eu continuava correndo e sorrindo.

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Sabia que um treinador da minha equipe estaria estrategicamente colocado esperando no quilômetro 35, oferecendo aos atletas da equipe um copo de refrigerante (é como água no deserto) e uns palitinhos salgados (que a esta altura do campeonato caem super bem). Passei a sonhar com esse momento. Quando o avistei, foi felicidade pura. A Coca-Cola e o salgadinho desceram redondos. Mais uma vez ouvi que eu estava bem. Sai desse check point super confiante.

Faltavam apenas sete quilômetros. E eu ia mantendo o ritmo e o sorriso no rosto. Os quilômetros finais foram de arrepiar. A gente passando por uma larga avenida, muita gente torcendo, aplaudindo… Você se sente uma estrela do atletismo. Quando olhei no relógio e vi que haviam se passado quatro horas, exclamei: “caramba, como passou rápido!” De repente, no final do quilômetro 41, a gente vira uma rua e avista o Portão de Brandemburgo. Nessa reta até passar pelo monumento veio a vontade de chorar de felicidade. Agradeci mais uma vez por estar ali e vibrei como nunca.

Cruzei o portão e corri os 300 metros finais, muito, muito feliz. Cheguei com 4h05m24s. Eu havia conseguido. Nessa hora você se sente poderosa. Não há alguém na face da terra que diga que você não pode fazer determinada coisa… Você se sente capaz de tudo.

Recebi a medalha, comemorei com os amigos, encontrei corredores famosos – o médico Drauzio Varella e a cantora Zelia Duncan – liguei para casa, festejei com quem tinha ficado no Brasil, recebi parabéns do meu treinador… E desde esse dia estou com um brilho especial no olhar. Eu sou maratonista mais uma vez.

LIÇÃO NÚMERO 5 DA MARATONA DE BERLIN: eu fui capaz de me reinventar. Mais do que nunca sei que sou capaz de fazer o que eu me proponho. E o melhor, com saúde, com disposição e muita alegria.

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 Texto originariamente publicado por Yara Achôa na revista BOA FORMA – novembro 2014

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5 respostas em “As lições da Maratona de Berlin

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  5. Yaretes fico tão feliz que tenha voltado a escrever no blog. Foi minha leitura constante por muito tempo. E justo com essa prova linda que é a Maratona de Berlim. Lembrei de todas as emoções que senti em 2013. Corro como vc. Presto mais atenção nas pessoas do que nos monumentos. Fui muito feliz por ai e desejo voltar o mais breve possível. Um beijo.

p o d e_f a l a r

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