… Mizuno UpHill Marathon, a maratona…

uphill_marathon (15)A Mizuno UpHill Marathon é a primeira maratona de subida do Brasil, realizada em Santa Catarina, passando pelos municípios de Treviso, Lauro Müller e terminando com a subida da Serra do Rio do Rastro, com 1419 m de altitude. A estrada por onde passamos é considerada uma das mais bonitas do mundo.

Apenas 50 corredores foram convidados a participar desse desafio. Fui uma delas. Eis meu relato.

Tomei o café da manhã com os amigos, fiz os ajustes finais na roupa, número de peito pregado na camiseta, chip no tênis. Concentração antes da largada, muitas fotos, risadas. À medida que o horário da largada se aproximada, os semblantes tornavam-se mais apreensivos.

Posicionei-me atrás de todos. Minha estratégia era fazer a minha corrida – escapar do corte no quilômetro 21, ou seja, passar nesse ponto antes de 2h30 de prova, e seguir no meu ritmo para completar os 42K antes das seis horas limites. “Eu não preciso ir rápido. Eu só preciso ir. E chegar!” – esse tinha sido meu mantra durante os treinos.

Enfim, partimos. Os mais rápidos logo se distanciaram. No bonde do fundão restaram eu, o Iúri, a Jacke e a Betina. Seguimos pouco tempo juntos. Logo as meninas abriram. O Iúri também se distanciou um pouco. Carros da produção e dos fotógrafos passaram por mim desejando força. Segui sozinha por um bom tempo. Alguma coisa começou a me incomodar, mas eu não sabia exatamente o que. Talvez fosse o medo de não conseguir completar somado a alguma coisa física, sei lá. Fiz força para espantar pensamentos negativos que invadiram minha cabeça. Foquei na respiração. Respirava lentamente buscando voltar ao eixo.

Tomei um carboidrato em gel entre os quilômetros 8 e 9 e dei uma animada. Foi lá pelo 10 que alcancei o Iúri. Fomos lado a lado quase sem falar nada. De vez em quando, como a irmãzinha “pentelha” que quer puxar papo com o irmão mais velho, eu arriscava: “Olha isso, olha aquilo…” E ele pacientemente tirava o fone de ouvido para escutar o que eu dizia. Mas não queria incomodá-lo, então resolvi ficar quieta de vez.

O segundo gel foi por volta do quilômetro 17. Acho que foi por aí que eu comecei a fazer uma lista mental dos animais que havia visto pelo caminho (guarde essa informação) para passar o tempo. “Cachorro, vaca, cavalo, galo”.

Sei que imprimimos um bom ritmo nas descidas, passamos pela cidade de Lauro Müller e chegamos ao quilômetro 21, o ponto de corte, com 2h15 de prova mais ou menos.

Ali também era o “special point”, onde tínhamos nossas “special needs”, ou seja, coisinhas que deixamos com a produção e que poderíamos utilizar naquele momento. Tomei coca-cola, comi amendoim, troquei minhas meias que estavam muito molhadas, ameaçando criar bolhas nos pés. Claro que perdi uns bons minutos.

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A segunda metade, que estava começando, seria mais dura. A partir do quilômetro 25, com o início da subida da serra, a coisa ia se complicar e só piorar até o final.

Eu e o Iúri partimos juntos novamente. Talvez por eu ter ficado parada um pouco e o corpo ter esfriado, senti as primeiras e horríveis câimbras nas duas panturrilhas antes de chegar ao quilômetro 22 – parecia que um alien tinha se infiltrado nos músculos das minhas pernas, andando de um lado para outro. Falei para o Iúri que ele podia seguir e fiquei para trás.

Mas o que me deixou preocupada foi a tremedeira na mão. Achei que pudesse ter um troço ali, achei que pudesse perder a consciência, sei lá. Foi então que a lista de animais que eu havia feito antes me veio à cabeça. Eu obrigava a mim mesma repetir, na sequência certa, os animais que tinha visto pelo caminho. “Cachorro, vaca, cavalo, galo”. Se errasse, tinha de recomeçar. Achava que assim eu manteria minha sanidade, meu controle mental. Tomei um Advil para aliviar a dor. Consegui contornar a situação e voltei a imprimir um ritmo razoável.

De vez em quando eu repetia a lista – que foi me cansando muito a cabeça, mas era uma maneira de não “pirar”, de não pensar nas adversidades e de não querer abandonar a prova.

Mais adiante, não sei bem ao certo, talvez por volta do km 30, câimbras horríveis novamente. Estava sentindo falta de sal e perguntei na ambulância, que vinha colada a mim, se eles tinham. O médico me deu um gole de soro fisiológico e, fora da ambulância, aproveitou para aplicar anti-inflamatório em spray e fazer uma massagem vigorosa nas minhas panturrilhas. De novo parti.

Nesse tempo todo também pensava na minha família, nas mensagens que recebi dos filhos, do marido e dos amigos. Ia ser muito frustrante abandonar a prova. Pensava que se eu parasse iria decepcioná-los. E eu própria ficaria muito triste, não sei se iria segurar a onda depois. Lembrava também das palavras do Bernardo e do Clayton: “não terminar não é uma opção!” Sem comprometer minha integridade física, eu tinha de terminar. Estava sendo uma experiência única e eu tinha de ir até o fim. Mas se você me perguntar de onde eu tirava forças, respondo que não sei. Foi punk!

À beira da estrada vi um cabrito – ou acho que era um cabrito – e o inclui na lista. Agora eram cinco. “Cachorro, vaca, cavalo, galo, cabrito”. Por várias vezes fechei levemente os olhos e balancei a cabeça, como se pudesse assim espantar os pensamentos. Achei que estivesse ficando louca. Com tanta coisa para pensar e eu fazendo lista de animais…

No 32, encontrei novamente o Iúri, que agora sentia dores. Ele ameaçou parar. Pedi que ele continuasse, caso contrário eu não teria forças para seguir também. Desta vez foi ele que procurou uma rápida ajuda na ambulância. Logo estávamos juntos de novo, lado a lado.

Ia negociando com meu corpo e com minha cabeça. “Vamos até o 35. Lá você decide o que fazer…” De novo lembrei das palavras do Clayton e do Bernardo: “Quando você acha que não aguenta mais, ainda restam uns 30%”. Certamente eu já tinha entrado nessa reserva – a questão era até quando ela iria durar…

Na minha cabeça vinha a lista de animais, minha família, a satisfação por estar em um lugar tão lindo e o orgulho de fazer parte daquele grupo… Ao meu corpo restava dar um passo atrás do outro.

No 36, mais câimbras. A ambulância parou e eu entrei. O Iúri seguiu. Tão logo estiquei a perna, senti dores horríveis de novo. O motorista perguntou: “vai parar?” Foi o médico, Dr. Vitor, que respondeu: “Não. Ela só vai fazer uma massagem. Já vai continuar”. Ri mentalmente – agora tinha de ir mesmo.

Enquanto um enfermeiro mandava ver em rigorosas manobras nas minhas pernas, aliviando os nós que tinham se formado, aconteceu esse rápido diálogo:

Dr. Vitor –Você tem alergia a algum medicamento?
Eu – Não.
Dr. Vitor Quer tomar uma dipirona para aliviar a dor e seguir até o fim?
Eu – Quero.
Dr. Vitor – Vamos aplicar na veia, para fazer efeito mais rápido.

Medicada e de volta à pista

Medicada e de volta à pista

As enfermeiras demoraram um pouco para achar uma agulha e eu já estava quase desistindo de esperar. Mas recebi a medicação, em uma veia da mão direita, e fui para a pista de novo.

Ganhei um bom gás. Mas como estávamos na parte de subida mais radical e avariada do jeito que eu já estava, segui aos trancos e barrancos, alternando caminhada e trote.

Faltando pouco mais três quilômetros para o final, um “anjo” foi destacado para me fazer companhia. Sargento Rafael – que também integrava a equipe médica da prova – foi comigo por uns dois quilômetros, contando a história da estrada da Serra do Rio do Rastro (conhecida na região como Serra do 12) e que o avô dele havia ajudado a construir. Eu tentava guardar as informações para depois poder escrever, mas àquela altura mal conseguia lembrar meu nome, rsrs.

Quando vi o fotógrafo Marcelo Machado, que fazia cobertura da prova, pouco antes de uma das últimas curvas da serra, me esforcei para sorrir e sair bem na foto, embora a exaustão estivesse estampada em meu rosto.

Faltava pouco. Virei a última curva e à frente haviam apenas 600 metros até a chegada. O Bruno, da organização, me disse: “Você não está vendo a linha de chegada por causa do nevoeiro, mas está logo ali. Está ouvindo o barulho?”

À medida que fui me aproximando do pórtico comecei a ver uma galera vindo em minha direção. O Iúri também estava ali, me esperando para cruzar a linha de chegada. Já chorando – de alegria e alívio – nos últimos metros eu dizia para o Iúri: “Chega! Eu não aguento mais, eu não quero mais…” Ele, rindo, dizia: “Calma, acabou…”

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Finalizamos a Mizuno UpHill Marathon em 5h37m com um abraço de irmãos.

Foi minha sexta maratona. A mais difícil que já fiz. Foi uma prova de camaradagem, apoio, força. Foi uma prova que me mostrou coisas novas, que me fez pensar nos meus limites, na vontade de continuar e de completar as coisas que muitas vezes eu abandono pelo caminho na vida. 

Muito, muito obrigada a todos que direta ou indiretamente me ajudaram a ir até o fim.

E quando eu achava que já havia tido todas as emoções possíveis em relação à Mizuno UpHill Marathon, eis que no dia seguinte abro meu Instagram e vejo meu nome citado nesse post:

estrada

“Hoje tive o prazer de ter um dos melhores dia de trabalho da minha vida. Responsável pela saúde de 50 maratonistas na #mizunouphill. 42km serra acima!!! Onde acompanhei principalmente a trajetória da guerreira @yaraachoa, jornalista paulistana que cumprindo suas próprias metas de vida me ensinou alguns conceitos sobre perseverança. Parabéns Yara! Sucesso na sua carreira e vida esportiva. #amooquefaço #marathon #serradoriodorastro #uphill #mizuno”

Era o Dr. Vitor Benincá, o jovem médico que não me deixou desistir. 

Hoje as dores nas pernas já sumiram. A marca da aplicação da dipirona na veia em minha mão está desaparecendo. As lembranças, os sentimentos e o orgulho de ter completado a UpHill vão ficar para sempre!

A marca da aplicação de dipirona na veia da mão direita está sumindo. A medalha e o orgulho são para sempre!

A marca da aplicação de dipirona na veia da mão está sumindo. A medalha e o orgulho são para sempre!

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16 respostas em “… Mizuno UpHill Marathon, a maratona…

  1. Pingback: Meus 10 anos de corrida! | eu corro porque…

  2. Yara, minha querida Yara.
    Quando pensei que já havia lido tudo sobre suas emoções, você me aoarece com mais essa. Parabéns por mais esse exemplo de determinação e perseverança.

  3. Cavaca, chorro, gabrito, caca, valo… cagalo, choca, gaca, vabrito, cava… calo, gabrito, vavalo, cacholo, carro… rs…

  4. Emocionadisima….agora faço uma maratona Iara,é um sonho. Chorei …chorei muito, o esporte mim deixa muiiiito emocionada, superação é minha palavra chave. Parabéns…muitos, vc foi uma guerreira.

  5. Muito, muito legal Yara. Pelo que vi, vc foi mais comemorada que o campeão da prova! hehe

    Parabéns pela raça e pela conquista dura, suada mas merecida!

    Beijo, Shigueo

    • (…) vc foi mais comemorada que o campeão da prova! (…)
      Talvez nunca uma máxima foi tão bem “materializada”…
      —– “Os últimos serão os primeiros!” —–

      Parabéns Yara Achôa!

  6. Que aventura! Muitos Parabéns! Como terminei a minha 5ª Maratona há pouco (3 Nov, Porto) e estou a preparar a minha 6ª (23 Fev. Sevilha) quase senti essas emoções todas que tu transmites. E as fotos estão 5 estrelas…acho até que dizem mais que as palavras! Lindas! Até me fizeram alguma comoção também! Lindas! Muitos Parabéns. Beijo de Portugal

p o d e_f a l a r

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