… completei minha quinta maratona (Rio)…

Quando corri minha primeira maratona, em maio de 2008, em Porto Alegre, com o tempo de 4h04m, me achei “a tal”. Foi aí que um amigo me chamou à realidade. Em tom de brincadeira, mas falando sério, ele disse: “você só vai entender o que é correr uma maratona lá pela quinta vez”.

Foi modo de dizer, claro – uma maneira de falar que quanto mais experiência se tem, mais a gente saboreia e desfruta a corrida, entendendo principalmente os sentimentos e as motivações que nos levam até ela. Só que esse número – cinco maratonas – ficou na minha cabeça.

Ainda em 2008, em novembro, corri a Maratona de Nova York. Em 2009 foi a vez da Maratona de Curitiba. Em 2010 veio a Maratona de Buenos Aires, quando atingi meu objetivo de fazer abaixo de quatro horas – fechei com 3h53m.

Era só correr mais uma para tirar a cisma da minha cabeça. Lembro que me inscrevi para Berlin no dia 1º de janeiro de 2011. Mas não basta se inscrever, tem que planejar, se organizar, treinar. Com muitas mudanças acontecendo no período, abri mão de ir para a Alemanha bem antes do dia da prova. Tudo bem, até porque descobri que meu tempo em Buenos Aires me credenciava a correr a Maratona de Boston. Fiz minha inscrição e recebi a confirmação. Minha quinta maratona aconteceria em 2012, em Boston! Mais uma vez, porém, meus planos não se concretizaram. A vida pedia outras prioridades.

O ano de 2013 começou e já com a rotina profissional e de treinos em ordem, achei que finalmente daria para encarar uma nova maratona. Foi em meados de março que contei a meu treinador, Marcos Paulo Reis, que gostaria de fazer a Maratona do Rio, em julho. Ele respondeu: “Vamos lá, vamos treinar para isso”. Mas sabíamos que não daria para repetir a performance de 2010. Claro que desejava fazer um bom tempo (pela atual condição isso seria por volta de 4h30m), mas acima de tudo queria sentir que era capaz novamente, queria desfrutar do percurso do Rio e cruzar a linha final sorrindo.

Maratona do Rio (2)

O DIA “D”
Eis que chega o dia 7 de julho de 2013, domingo de muito sol. Estava ansiosa e feliz como se fosse a primeira vez. Tinha todo o esquema da prova na cabeça, as passagens pelos quilômetros 5, 10, 15, 21, 30, 35 e 42. Mas um “sinal”, logo cedo, parecia avisar para não me preocupar com minutos e horas: a pulseira do relógio quebrou. Cheguei a considerar correr sem ele, mas consegui “consertá-lo” com uma super cola adesiva e fui para a largada.

Sempre me emociono na chegada, mas dessa vez quase chorei na largada, com as palavras do locutor. Partimos da Praça do Pontal, no Recreio dos Bandeirantes. Pelo meu planejamento, os dois primeiros quilômetros seriam em ritmo mais lento. E nem dava mesmo para acelerar muito, visto que esse trecho inicial era estreito. As passadas fortes dos atletas reverberando no asfalto pareciam as batidas dos nossos corações – é, eu estava mais emotiva do que o normal e a Maratona do Rio se anunciava para lá de especial.

A primeira metade da prova foi uma reta só, beirando as praias do Recreio, da Reserva e da Barra da Tijuca. E apesar do sol forte, eu consegui manter o ritmo, conversar com um ou outro corredor e curtir a paisagem.

A SEGUNDA METADE
No final da Barra, o percurso se tornou mais familiar – já corri várias meias maratonas no Rio, largando naquela área. Não pude deixar de lembrar ainda das emoções da corrida SP>Rio (600K), que também passou por ali. Só que a partir de então as dificuldades seriam maiores: trechos de subida, cansaço, sol mais forte, temperatura perto dos 30 graus…

Eis que surge um túnel. Com a escuridão, senti certa pane e medo de cair, o que me fez diminuir a velocidade. Logo depois, porém, o sol voltou a iluminar o caminho e me deslumbrei com a vista do Joá e a beleza de São Conrado. Nessa altura, o relógio já apontava quatro minutos a mais do que o planejado. Mas estava tudo certo – lembrei que o importante era me sentir bem na prova.

As forças começaram a faltar na longa subida entre os quilômetros 27 e 28. O calor estava minando minha energia. Tinha de controlar o lado psicológico. Uma das coisas que me motivava era pensar que logo após o Vidigal vinha o Leblon e a prova ganhava uma animada plateia. Como estava um dia quente, tinha muita gente na rua e na praia.

relogioSEM TEMPO
A partir do quilômetro 32, já em Ipanema, com sete minutos a mais do que o previsto até ali, a relação com a maratona passou a ser de amor e ódio (diferente de tudo o que eu tinha sentindo nas outras quatro vezes). Ao mesmo tempo em que curtia estar na maratona, também pensava que poderia ser apenas como aquela moça que vi passar trotando tranquilamente pela calçada. Também foi nesse ponto que acabou de vez a preocupação com o tempo que eu faria: meu relógio apagou. Passei a ditar o ritmo conforme o que eu sentia e me guiei pelos relógios de rua.

A distância até a chegada diminuía e os incômodos aumentavam. Não sentia exatamente dor, mas algo me “paralisava” e me fazia seguir mais lentamente. Passei a esperar pelo quilômetro 35, pois sabia que um professor da minha assessoria estaria me esperando com uma Coca-cola e uns stickers (aqueles palitinhos salgados). Foi bom parar por instantes e fazer o “lanchinho”. Agora faltava pouco mesmo, só mais sete quilômetros. Calculava que estava fazendo sete minutos por quilômetro, então seriam aproximadamente mais 50 minutos…

Mas esse final foi punk. A cabeça se rebelava contra o corpo e pedia para parar. O corpo obedecia uns segundos, mas depois voltava a trotar, tentando convencer a cabeça de que quanto mais rápido ele fosse, mais rápido acabaria. Também cheguei a pensar que correr 42 quilômetros só podia ser uma espécie de penitência, como se a gente estivesse ali pagando uma promessa. Acho até que cheguei a jurar que não queria nunca mais correr a distância – mas foi uma jura falsa, foi só naquele momento de conflito…

CRESCI E APARECI
Chegando ao quilômetro 39, ouvi meu treinador gritar meu nome e perguntar se estava tudo bem. Respondi que sim. Dali para frente tratei de resgatar todas as boas sensações da corrida e colocar meu melhor sorriso no rosto. Renasci, cresci, firmei o passo e fui. Na reta final eu era a imagem da felicidade (as fotos não me deixam mentir). Agora, sim, era a mesma felicidade que senti todas as vezes outras quatro vezes que encarei os 42K, independente do resultado. A mesma felicidade que me faz ir adiante, acreditar, enfrentar altos e baixos e chegar onde eu quero chegar seja qual for a situação. Pouco antes de cruzar a reta final, ainda vi minha filha na plateia, vibrando por mim. E no pórtico de chegada estava meu marido, me esperando para registrar esse momento tão especial. Fechei a Maratona do Rio em 4h44m.

Cada pessoa tem a sua genética, o seu treinamento, a sua fase de vida, a sua experiência: para uns é mais fácil, para outros é mais difícil. Em se tratando de amadores, não dá para fazer uma comparação do tipo “fulano foi bem melhor do que ciclano”. Para mim eu fui bem. E ponto.

Sim, acho que agora entendi o que é correr uma maratona. Entendi que é preciso se dedicar e respeitar a distância, dar o melhor mas também se divertir, fazer por prazer e não apenas para buscar um bom tempo ou pela “vaidade” de ser chamado de maratonista. E agora que entendi, pretendo “estudar” ainda mais essa matéria. Nem bem deixei o cenário da Maratona do Rio e já comecei a pensar em uma próxima.

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9 respostas em “… completei minha quinta maratona (Rio)…

  1. Pingback: Meus 10 anos de corrida! | eu corro porque…

  2. Olá Yara , adorei seu relato, sua força , estou indo correr uma Maratona agora em agosto e histórias como a sua era o que eu precisava para sentir mais confiança , fiquei feliz mesmo por voce, gosto de mulheres que andam de moto, são policiais, bombeiras, médicas, e maratonistas !!! Estão um degrau acima de muito marmanjo , e um espelho para seus filhos…. Felicidades sempre !!!!
    Alessandro Guimarães BALEIAS/SP
    correndoquemeentendo.blogspot.com

  3. Minha querida Yara. Fui ler o seu post quando da maratona de 2008 e esperava poder rever a mensagem que escrevi para você, mas não localizei. Oficialmente já fiz 4 maratonas e lembro-me que ao ler sua mensagem naquela oportunidade foi o estopim para que tivesse despertado em mim o objetivo de correr também uma maratona. É sempre emocionante ler um depoimento de uma pessoa que acabou de correr uma maratona e teu relato exemplifica bem isso. Acho que quando passamos um tempo sem correr uma maratona ficamos com saudades das sensações que ela nos proporciona mesmo as mais dolorosas e mesmo assim sempre temos a vontade de correr mais uma. Ainda não consegui em palavra expressar exatamente o significado de terminar uma prova dessa, mas a primeira coisa que me vem a cabeça é de achar que somos pessoas diferentes. É claro que não somos, mas é só uma sensação. Por fim Yara, parabéns por mais esta conquista e com certeza virá a 6ª, 7ª, 8ª …… e estaremos todos esperando por mais uma emocionante relato.

  4. Muito legal, Yara! Parabéns por mais essa conquista. Tb estava lá e sei bem o que foi esse sol forte. Essa foi a minha primeira maratona e eu fico feliz por vc tb ter a mesma paixão que eu tenho – mesmo já tendo muito mais tempo de asfalto. Esse esporte é movido por paixão e dá pra sentir nas suas palavras o quanto isso ainda é vivo. Parabéns!!!!

  5. Que delícia ler você, que descreve o que é correr uma maratona como ninguém!!! E eu compartilho de tanta coisa que você descreveu aí… Pra mim, correr é muito mais que fazer um tempo assim ou assado… na verdade, isso pouco importa no fim das contas. Posso ter feito meu pior tempo, mas se me diverti, se consegui chegar sorrindo e feliz, aquela vai ter sido a prova mais legal!
    Beijo grande, querida! E parabéns por mais essa conquista!!

p o d e_f a l a r

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