… completei minha quarta maratona, a primeira sub-4 (Buenos Aires)…

Maratona de Buenos AiresFoi em Buenos Aires, em 10.10.10, que completei minha Maratona sub-4: foram 3h53m45s (tempo oficial) de muita alegria e determinação. Um objetivo que tracei há quase seis meses quando realizei a inscrição para a prova.

Foram meses de treino. Mais do que isso, meses em que lutei para recuperar o foco. A corrida tem esse poder: me colocar no eixo, me devolver o foco, me mostrar que o comando está em minhas mãos – e em meus pés, porque não…

Agradeço a meus filhos pela enorme paciência de ter uma mãe maratonista. Agradeço aos amigos que, de uma forma ou de outra (às vezes até mesmo sem saber), me ajudaram. E a tantos outros amigos e leitores que deixaram comentários, palavras de apoio, dicas.

Mas chega de ser piegas. Vamos ao que interessa: a Maratona sub-4 em Buenos Aires: sí, se puede!

O ANTES
Cheguei a Buenos Aires na quinta, dia 7, para fazer as coisas com calma e até relaxar um pouco antes da prova. Mas relaxar é modo de dizer. Vim com minha filha e, claro, logo estávamos batendo perna conhecendo a cidade.

Na sexta, ao lado de alguns amigos, fizemos um “running tour”, conhecendo correndo alguns pontos bacanas da cidade. Também na sexta, estivemos na entrega do kit, super organizada e tranquila.

No sábado pela manhã recebi as últimas orientações do treinador Fábio Rosa, da minha assessoria (MPR), que estava na cidade para auxiliar os alunos na Maratona. E à tarde, passeio turístico light e almoço de massas na gostosa tarde de sol em Puerto Madero.

Mas o sol estava me preocupando. A previsão era de calor para o dia seguinte – e eu estava esperando o frio e me programei para correr de manga comprida.

À noite esperava comer massa também. Mas para não ir longe de casa, acabamos em um agradável barzinho em Palermo, chamado Romário, comendo pizza. Com toda essa agitação e a ansiedade pela corrida, fui dormir tarde. Mas dormi bem. 

O GRANDE DIA
Realmente o domingo amanheceu esplendoroso. Céu azul e sol. Mesmo assim mantive a camiseta Adidas de manga comprida da minha assessoria (o tecido é bem agradável e eu dobrei as mangas) e coloquei a bermuda de compressão da Santaconstancia, com a qual fiz minhas últimas provas e longos. Nos pés, meias Nike e tênis Mizuno ProRunner 13 – também grande companheiro na minha preparação. No bolso, cinco carboidratos em gel: dois Accel e três Gu (um deles em forma de goma, comprado na feira da maratona) e uma cápsula de sal.

Eu, minha filha e um casal amigo saímos de casa, em Palermo, às 6h15 da manhã, de táxi. A largada era às 7h30, na Avenida Figueroa Alcorta, em Belgrano. Com o trânsito já interrompido pela região, o taxista nos deixou muito longe. Eram 6h40 e teríamos de caminhar uns quatro quilômetros.

Estressei. Deveria ter me informado melhor na véspera. Metade caminhamos, a outra metade fomos trotando – o que no final acabou sendo bom, servindo como aquecimento.

Momentos antes da largada, ainda meio aérea, parecia estar em um sonho. Havia chegado a hora. A largada aconteceu sem atropelos pela espaçosa avenida. Parti, concentrada no ritmo que deveria imprimir a cada quilômetro.

Pelos planos do meu treinador, deveria pegar leve nos 10K iniciais, com ritmo de 5’45”, para depois encaixar em 5’35”, concluindo, se tudo desse certo, em 3h57m. Mas tudo se encaixou desde o início, com ritmo bem regular. Fechei os 10K com 55m37s.

Nem percebi passar a primeira hora de prova, percorrendo largas ruas e avenidas em direção ao centro. Estava me sentindo muito bem. Mas, embora confiante, sabia que o sub-4 não estava definido: ainda temia o “muro” do quilômetro 30 – em Porto Alegre, em 2008, foi assim. 

Mais ou menos por aí, encontrei amigos da minha assessoria e segui ao lado deles. Estávamos com camisetas amarelas, com uma pequena bandeira brasileira estampada, e um deles tinha a inscrição Brasil no peito. Com isso, éramos saudados o tempo todo. O público argentino, pelas ruas da cidade, foi muito amável com os brasileiros: “Vamos, Brasil”, “sí, se puede!”

Em alguns momentos lembrava a recomendação de um guia turístico local: Buenos Aires é uma cidade para se correr olhando para o alto, para admirar a beleza de suas edificações. Fiz isso em vários trechos. Em outros, concentradísssima em meu pace, consegui não enxergar o enorme e amarelo estádio do Boca Junior (entre o quilômetro 16 e 17), uma das atrações do percurso. No final, quando amigos comentaram sobre o estádio, eu perguntei: “onde estava o Boca Junior que eu não vi?”. Virei motivo de piada.

Fechei a meia maratona em 1h55m – tudo seguindo conforme o planejado. A hidratação na prova estava perfeita: água a cada cinco quilômetros, com isotônico (e algumas vezes frutas) intercalando também a cada cinco. Apenas as esponjas molhadas – prometidas em três trechos da prova – não foram suficientes para todos os corredores. Apenas os mais rápidos conseguiram se refrescar dessa maneira.

Eu tomei meu carboidrato em gel por volta dos quilômetros 10 (Gu), 20 (Accel) e 30 (Gu em goma), me hidratando bem também.

Segui com meus amigos, até o quilômetro 30, quando eles abriram um pouco. Não forcei para seguir junto – pelas minhas contas, era só manter o ritmo, podendo até diminuir um pouco, para chegar ao sub-4. Mas o sol começava a ficar forte, aumentando o desgaste, e tudo o que eu queria era chegar logo para escapar dele.

O treinador Fábio Rosa combinou de nos esperar no quilômetro 35 para ver se estávamos bem e dar uma Coca-Cola para levantar o ânimo. Desde o quilômetro 30 eu “sonhava” com essa Coca.

O quilômetro 35 começava em um pequeno um trecho de descida, tendo o Planetário Galileo Galilei à direita, e passava por baixo de um viaduto. Nesse instante veio aquela sensação maravilhosa que senti em minha primeira maratona, uma alegria imensa e também uma grande vontade de chorar. É difícil explicar por que isso acontece. Só sei que o ar começa a faltar, a respiração fica ofegante e até lágrimas ameaçam escorrer. Mas se eu chorasse poderia faltar fôlego. O melhor a fazer era controlar um pouco a emoção e partir em busca da Coca-Cola.

Mas cadê o Fábio? Quando já estava pensando que não iria encontrá-lo, o vejo atravessando a pista e me entregando uma garrafinha de Coca. Ele perguntou como eu estava e respondi: “estou ótima!” O refrigerante desceu redondo.

Faltava muito pouco. Mais sete quilômetros e a sub-4 seria uma realidade. A essa altura a projeção era de 3h54m.

Na reta final, novamente na linda e larga Avenida Figueroa Alcorta, me senti poderosa – passo firme, brilho no olhar, sorriso no rosto -, conseguindo até ultrapassar alguns corredores. Ouvi minha filha gritar “mãe, sub-4!”. E ela correu para me fotografar. Lembro de ter dito: “É bom correr, porque eu não vou diminuir o ritmo para você bater foto”.

Faltando poucos metros para a chegada, veio novamente a vontade de chorar. Dei um grito de felicidade e deixei a emoção e as lágrimas virem. Cruzei a linha chorando e rindo.

No relógio, a marca de 3h53m48s – uma sub-4, com folga. 

Dessa vez não encontrei “muro”: fiz uma corrida bem racional, mas também curti demais.

Os números no Garmin: http://t.co/9yQKEVZ

O DEPOIS
Quando o corpo esfria, claro que aparecem as dores. Mas nada assustador. Senti um pouco apenas os quadríceps – dores que lembravam que, afinal de contas, eu havia corrido 42 quilômetros. E nem uma bolha ou unha danificada! Pés intactos!

E a adrenalina pós-maratona é demais. Eu fico meio boba, muito feliz, me sentindo a tal. Comemoração com minha filha novamente na ensolarada tarde portenha em Puerto Madero. À noite, dividi minha alegria com os amigos da MPR e da Run&Fun. Nós, maratonistas, merecemos!

O LADO TENSO DE BUENOS AIRES
Me programei para ficar em Buenos Aires alguns dias a mais após a Maratona. Nada como passeios agradáveis, boa comida, doces e vinhos para dar uma relaxada. Na segunda, dia 11, foi feriado por aqui. Cidade tranquila, dia bonito, sai para dar uma volta com minha filha durante o dia. À tarde resolvi descansar um pouco.

Com energia recuperada, à noite saímos para jantar em um restaurante em Palermo, perto de onde estávamos. Fila de espera grande. Mesmo assim ficamos. Apesar da demora, foi uma noite agradável.

Caminhando de volta para casa, em uma rua já um tanto deserta (sim, erramos, estávamos distraídas), fomos surpreendidas por um homem, que nos agarrou por trás. Logo apareceu outro. E eles pediram nossas bolsas. Foi tudo muito rápido e muito tenso.

Mas de repente eu fiquei de frente para um deles, pensando (tudo em questão de segundos) o que eu iria fazer. Vi que poderia dar um chute nele e sair correndo, mas tinha minha filha… Não sei de onde tirei força e coragem, foi uma reação muito instintiva, comecei a gritar. Um rapaz, que trabalha em um restaurante próximo, estava passando e viu a cena e se aproximou para nos ajudar. Com os gritos eles fugiram, levando a bolsa da minha filha.

E como num filme de ação, em questão de segundos apareceu um policial correndo na direção em que apontamos que o ladrão tinha ido (na hora pensei “esse é corredor”). Em seguida vieram vários carros de polícia. Logo depois, os policiais nos comunicaram que haviam prendido o ladrão – e recuperado a bolsa! – e nos levaram para fazer boletim de ocorrência. Foram muito atenciosos e nos trataram muito bem.

Dois dias depois (quinta) tivemos de comparecer ao Tribunal de Justiça para confirmar nosso depoimento dado na polícia. Agora o processo vai correr e o ladrão pode pegar de um mês a quatro anos de detenção. Na capa do processo está lá o carimbo: “detenido”! Esse nunca pensou que iria encontrar uma “maluca” – protegida por Deus – pela frente.

Foi um susto. Felizmente acabou tudo bem. O episódio deixou o resto da viagem mais tenso. Mas ainda estamos curtindo a cidade – inclusive fui ver o Estádio do Boca Junior (não poderia ir embora sem isso).

E voltamos ao restaurante em que trabalha o rapaz que nos ajudou no dia do assalto – coincidentemente o mesmo em que havíamos comido a pizza no sábado, véspera da Maratona. Mais uma vez agradeci a ajuda do moço e a Deus por tudo ter acabado bem.

E a vida segue. Hoje voltei a correr, para aliviar a tensão dos últimos dias: fiz oito quilômetros, em 45 minutos, em um agradável parque de Buenos Aires. Agora é voltar para casa e, dentro de uma semana, colocar o pé na estrada de novo: Desafio dos 600K, aqui vou eu!

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3 respostas em “… completei minha quarta maratona, a primeira sub-4 (Buenos Aires)…

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